"E quando silencio, teu amor me nina na canção das estrelas" (Sonya Azevedo)

 

22/09/2026

Setembro

 

Setembro

Ó tu, Setembro, trazes-me a bonança
Com o brotar das várias bela  flores
Que levarão do seio as minhas dores
Do inverno solitário sem medrança.

Vem, setembro, trazendo-me a esperança,
Nas cores várias, versos com ardores
Na pena desses caros trovadores,
Que legam à alma a bem-aventurança!

Vem, chega assim, o mais devagarinho, 
O mais mansinho no aquecer desta alma,
Que sofreu a aridez do desencanto.

E quanto a mim, reabre-me o escaninho
De onde tiro os meus versos e me ensalma
Com teu olor, a vencer este quebranto.


06/06/2026

Jardins da Ausência


 
Mote

Minh' alma de sonhar-te, anda perdida!
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer razão do meu viver,
Pois que tu é já toda a minha vida!


Jardins da Ausência
Sonya Azevedo & Florbela Espanca

Vago nas noites... sou alma despida!
E ao contar das estrelas, mil lembranças
Afloram n' alma. Ah, são flores bandidas,
Nesse jardim cultor das esperanças.
Meus sonhos jazem em terra batida,
Enquanto em mim a dor vem por herança.
Minh' alma de sonhar-te, anda perdida!
 
O breu da noite, em árdua e vil tardança,
Embaça os olhos com pranto e querer,
Pois que, ao silêncio, quer sua esquivança,
Já que ele traz espinhos, faz fender
Retinas de um passado que, em bonança,
Trazia-me o sabor do teu querer.
Meus olhos andam cegos de te ver!
 
Fizeste da minha alma tua estança
E nela entraste sem a merecer.
Em meus sentires criaste hospedança
Sem, contudo, fazê-los florescer.
Ao meu jardim trouxeste a vil parança
E a flor do amor, deixaste perecer...
Não és sequer razão do meu viver!
 
A lua, seus cabelos já destrança
E, envolta em seda, faz-se bem vestida.
Há pingos sobre o mar, é a mudança
A florescer-te em mim, que distraída,
Aduba o amor e toda uma esperança
De ter-te junto a mim pré-concebida,
Pois que tu és já toda a minha vida

Sonya Azevedo

19/04/2026

Mudez do Adeus



O falar jaz tão carente
Quando um adeus fecha a porta.
Cresce um falto conivente
Com o pranto que não conforta.
É a dor da insensatez,
Quando o peito diz talvez.
O amor já não mais importa...
E a saudade é inclemente.
O falar jaz tão carente,
Quando um adeus fecha a porta.

22/03/2026

Adeus, Soneto



Hoje, eu decidi, mesmo com tristeza,
Que após este convívio duradouro,
Depois de ver-te reluzir qual ouro,
Irei pegar carona na incerteza,

Descer o novo rio na correnteza,
Viver as novidades qual calouro,
Colher os versos em seu nascedouro,
Fazer poema usando a sutileza.

Ah, deixarei contigo o teu rigor,
Certa que a decisão causar-me-á dor,
Mas, seguirei a senda inda serena.

Assim, eu fujo dessa insensatez
Que tu me impões, e, como a prima vez,
Irei mimar os versos com mi' a pena.

23/02/2026

Viver


 Viver

Hoje a vida apresentou-se-me calma!
U'a paz interior que não tem preço!
Um céu azul, fulgor do sol, apreço
Da Natureza a expor privança d'alma.

Uma ave ao longe, seu cantar que ensalma
Os arcanos da vida e, sem defesso,
Acho-me no silêncio e, assim, floresço
Em gratidão ao Criador e à mi' alma.

E nesse instante breve e tão profundo,
Vejo o tempo abrandar o passo e, manso,
Mostrar-me quão perfeito é esse universo.

Enfim, isso é viver: cheiro de mundo
Onde colo de estrelas é remanso
E o luar, em louvor, escreve versos.

Sonya Azevedo

09/02/2026

Poema

Poema

Escuta o que te falo: é um poema!
Cria das profundezas da alma pura
Que extrai da vida toda sua ternura
Qual pétalas macias da alfazema.

Ouve sentindo, unindo fonemas,
Tirando das palavras a amargura, 
Colorindo a oração co' arte e doçura
E os versos em formato de diadema.

E, assim, sente este canto sem lamento,
Sem sobra vã, sem lágrima exaltada,
Cria de um amor no sol do firmamento.

Ouve o murmúrio da alma enamorada,
Qual solfejo sutil no vago intento,
Em que eu revejo tua face amada.

23/01/2026

Exílio


 Exílio

Na beira dessas mais de mil lembranças.
Sento-me. Areias tão molhadas... pranto
Desta alma que ora dista de seu canto,
Canto da terra que o olhar não alcança!

Poder que essa saudade tem: brisança!
Dos cacos da memória faço um manto
Sagrado, abrigo em lúgubre acalanto,
Onde o seio na dor, apenas dança.

Ah, exílio! Dor no cheiro desse mar
Que entranha na alma e a tudo anestesia...
Cheiro de uma saudade! Tanto amor

No chão da pátria, terra no além mar, 
Que hoje reverencio em poesia,
Para abrandar toda esta minha dor!

(Sonya Azevedo)